
Com esta expressão o apóstolo Paulo inicia o tratamento sobre os dons espirituais no contexto do culto da igreja de Corinto. O objetivo do apóstolo não é desestimular a prática dos mesmos, mas levar aquela comunidade ao conhecimento adequado em função do maior aproveitamento e benefício dos dons para a igreja.
O objetivo desta breve reflexão é apontar a idéia central de cada parágrafo que compõe os capítulos 12 e 14. Faremos isso utilizando uma linguagem de fácil entendimento. Ademais, o texto apresentado atende a solici-tação de alguns alunos para transcrever os comentários feitos desses capítulos em sala de aula. Assim, essa reflexão deve ser tomada como um diálogo construtivo e que produza mais amadurecimento e menos ignorância a respeito dos dons espirituais.
Então, Bíblia aberta e mãos a obra...
1Cor.12.1-3
É contra a ignorância que Paulo se manifesta. A ignorância não é compatível com o cristianismo. De modo que, qualquer iniciativa para deixar alguém na obscuridade a respeito de qualquer que seja o assunto da vida cristã deve ser repudiado. O esforço de Paulo é para fazer aqueles cristãos “compreender”. Essa nova postura não encontrava paralelo com o antigo viver dos coríntios. Outrora, eram movidos pelos ídolos mudos. Essa postura antiga não foi imposta sem a aceitação deles, uma vez que Paulo diz que eles mesmos se permitiam serem guiados pelos ídolos. Agora eles deveriam envidar esforços para compreender a nova vida e por meio desse aprendizado serem guiados pelo Senhor Jesus. A primeira coisa que deve ser compreendida é a relação entre o Espírito de Santo e o Senhor Jesus. Parece-nos que, para alguns daquela igreja, a simples afirmação do senhorio de Cristo não era suficiente para identificar a atuação do Espírito Santo na vida de um cristão. A fim de corrigir qualquer equívoco nesse assunto, Paulo explicitamente declara que, o que alguém confessa a respeito de Jesus revela se o mesmo está sobre a influência do Espírito Santo. É uma relação de causa e efeito. Ninguém pode confessar o senhorio de Cristo se isto não for por intermédio do Espírito Santo. Em revés, o Espírito não participa daquele que declara Cristo como anátema. A esta altura cabe uma pergunta: O que tudo isso tem com os dons espirituais? Os parágrafos que seguem demonstram que alguns valorizaram tanto alguns dons, o dom de línguas em especial, que não reconheciam o Espírito Santo naqueles que não possuíam este dom. Isso era a primeira ignorância que o apóstolo procura dissipar. O que testifica da atuação do Espírito Santo na vida dos membros da igreja de Jesus não é a manifestação de nenhum dom em particular, mas a confissão do senhorio de Cristo. Esta confissão não deve ser tomada como um mero assentimento intelectual, mas uma disposição de aceitar todas as implicações do discipulado cristão.
1Cor.12.4-11
No primeiro momento (4-6) o apóstolo faz três afirmações paralelas com o mesmo sentido. Os dons, os serviços e as realizações são diversos. Mas o Espírito, o Senhor e o Deus Pai são o mesmo. Isso significa que na diversidade existe unidade. Se considerarmos que os crentes daquela igreja estavam privilegiando alguns dons em detrimento de outros, então aqui Paulo corrige essa deturpação. O fato dos dons espirituais terem a mesma procedência deveria levar os crentes a não promover acepção por causa deles.
Em seguida o apóstolo explica a razão dessa diversidade. É notável que quando ele menciona “manifestação do Espírito” está atribuindo aos dons espirituais uma atuação sobrenatural. Sim! Sobrenatural. Apesar de o termo ser bastante desgastado nos dias atuais, não devemos nos espantar com esta expressão. Os dons são atividades que excedem o natural, são manifestações do Espírito Santo de Deus que, ainda que em cooperação, excedem a capacidade ordinária do indivíduo. Note que não depende do próprio indivíduo decidir qual dom irá exercer. Essa manifestação é concedida. É uma dádiva individualizada. Paulo conclui essa unidade de pensamento exibindo qual o propósito dessa manifestação graciosa e pessoal: um fim proveitoso. Conquanto nesse parágrafo o apóstolo não declare explicitamente, adiante ficará claro que esse fim proveitoso está relacionado com a edificação de toda a igreja.
No contexto da diversidade Paulo faz menção de uma lista exemplificativa. Não existe nenhuma sugestão de que esta seja uma lista taxativa. Nem aqui e nem em qualquer outro lugar das Escrituras existe tal lista taxativa de dons espirituais. Isso deve nos fazer cautelosos em pelo menos dois aspectos: (1) Afirmar quantos e quais são os dons espirituais. É certo que podemos nos utilizar das listas que o Novo Testamento apresenta, mas não devemos por limites naquilo que a Bíblia não limitou. (2) Definir como esses dons eram exercidos. Nesse particular é preciso cuidado com a especulação. Qual a diferença entre a palavra de sabedoria e a palavra do conhecimento? E entre a revelação e a doutrina? Como esse dom da fé se manifesta? O que distingue as operações de milagres e os dons de curar? Por mais que aceitemos uma ou outra distinção possível, sempre haverá algumas dúvidas sobre a atuação deles. Destarte, uma coisa é certa e segura. Todos os dons, sejam quais forem, são oriundos do Espírito que os concede de modo soberano e individualmente.
1Cor.12.12-31
Apesar de ser uma unidade textual mais longa, não é difícil sintetizar o ponto central: A comparação da igreja com o corpo humano. Essa comparação exibe de modo claro a diversidade na unidade. Muitos membros e um só corpo. Sobre essa comparação algumas considerações: (1) Quando começamos a fazer parte do corpo? A resposta a essa indagação encontra-se na atuação do Espírito Santo. Sem entrar nas discussões a respeito da relação desse texto com o batismo com o Espírito Santo no livro de Atos dos Apóstolos, é sufici-ente afirmar que todo cristão, seja qual for sua procedência (judeus, gregos, escravo, livre, etc) só é membro do corpo de Cristo porque foi inserido (batizado) por intermédio do Espírito Santo. Essa mesma relação é exemplificada a partir de outra ilustração. Todos aqueles que participam do corpo bebem do mesmo Espírito. Com isso Paulo aponta uma origem única para todos os cristãos. Diante disto, não é certo nem direito, promover divisões por causa dos dons espirituais concedidos graciosamente pelo Espírito que nos uniu no mesmo corpo. (2) De onde vem a diversidade? “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve” (18). Este versículo por si só anula qualquer sugestão de divisão em razão das diferenças dos dons. Essas diferenças têm origem no próprio Deus. Se Deus assim o fez é porque isso melhor o glorifica e nos beneficia também. (3) Como lidar com a diversidade? Essa última questão trata da relação entre os mais diversos dons. Nem todos têm a mesma honra, mas todos são necessários. Todavia, Deus cuidou em dar mais honras ao que menos tinha para evitar divisões. Paulo apresenta uma nova lista, diferente da apresentada anteriormente, agora ele alista através de uma ordem estabelecida pelo próprio Deus (28). A conclusão mais uma vez reforça a diversidade, nem todos têm os mesmos dons. Mas deixa-nos com uma sugestão: Procurar os melhores dons!
Quais são os melhores dons? Antes de dar qualquer orientação sobre essa procura, Paulo apresenta uma procura mais excelente: o caminho do amor. Para o nosso propósito, essa digressão do apóstolo será vista noutra ocasião. Em função de continuarmos a discussão a respeito da busca dos melhores dons veremos imediatamente o capítulo 14.
1Cor.14
No primeiro versículo Paulo reafirma o caminho do amor, sem prejuízo da procura dos dons espirituais. Mas qual o melhor dom a ser procurado? Do modo claro e inequívoco o apóstolo declara: “MAS PRINCIPAL-MENTE QUE PROFETIZEIS”! Destaquei essa expressão porque ela dá o tom de todo o capítulo 14. Antes de continuar a análise, algumas considerações: (1) O argumento não é proibitivo, mas regulatório. Certa vez alguém me disse: “Paulo não proíbe o falar em línguas na epístola aos coríntios?” Ora, não há nada mais falso de acordo com o texto. Basta percebermos a conclusão de todo argumento: “procurai com zelo o dom de profetizar e não proibais o falar em outras línguas” (39). (2) A natureza da profecia. O mais importante a destacar com respeito a natureza da profecia é o fato da mesma ser inteligível a quem ouve. Seu conteúdo pode ser entendido por quem escuta. Alguns, não satisfeitos, produzem uma série de indagações: “São preditivas?” “São revelacionais?” “Existem em função da ausência do fechamento do Canon?” “São interpretações místicas do Antigo Testamento?” Minha posição é que não é possível definir com precisão o conteúdo dessas profecias, senão o fato de que através delas Deus se comunica inteligivelmente com quem ouve e promove salvação (24-25).
1Cor.14.1-5
Não resta dúvida que Paulo traça um paralelo entre línguas e profecia. Possivelmente a razão seria o uso inadequado das línguas naquela igreja. O resultado da comparação é que a profecia é superior as línguas porque ela se dirige aos homens para edificar, exortar e consolar. Alguém poderia indagar: Então as línguas devem ser abandonadas? São inúteis? Já havíamos advertido que não é propósito do apóstolo excluir a presença das línguas no culto. A razão parece está na utilidade particular das línguas para aquele que fala. Enquanto a profecia é o homem que se dirige aos homens, as línguas é o homem que se dirige a Deus. Precisamente por essa razão é que ela se torna um mistério para quem ouve. Dessa maneira existe um benefício para quem fala, a si mesmo se edifica. Paulo reconhecendo a utilidade das línguas afirma: “Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas...”. Mas, em comparação com a profecia, as línguas não trazem benefício para toda igreja, visto que ninguém compreende, razão porque a profecia é superior. No entanto, se a mesma língua for interpretada, ou seja, traduzida para uma língua inteligível, então ela se equipara a profecia pois atinge o propósito de alcançar toda igreja.
1Cor.14.6-19
A preocupação do apóstolo é se a igreja toda está sendo beneficiada. Assim, os dons que comunicam as verdades devem ser tidos como mais úteis para a coletividade, tais como: revelação, ciência, profecia e doutrina. Qual a diferença entre eles? É mais fácil responde qual a semelhança: todos emitem uma palavra compreensível. Paulo usa duas ilustrações: (1) A linguagem da música. Se um som musical não enquadrar-se na linguagem própria, notas musicais, ninguém as entenderá. (2) A linguagem bélica. Na guerra não era diferente. A trombeta possuía determinados sons que tinha uma linguagem de comando própria, se ignorada poderia causar confusão. Este dois exemplos são suficientes para demonstrar que há muitas vozes no mundo, ou seja, muitos tipos de linguagem. Esse exemplo explica porque as línguas são inferiores aos dons de revelação, ciência, profecia ou doutrina (que bem podem ser chamados de dons da palavra). Ela não é entendida por aquele que ouve.
Antes de encerrar essa sessão duas observações da maior importância: 1º Revelado o problema nevrálgico dos coríntios: Eles estavam satisfeitos com a edificação particular (línguas) e ignoravam a edificação coletiva (palavra). Não é razoável imaginar que tudo aquilo que ocorria naquela igreja era desprezível, carnal ou demoníaco como alguns supõe. Aqueles irmãos careciam de amadurecimento, por isso a ordem de Paulo: “procurai progredir”! Como eles poderiam progredir? Interpretando as línguas faladas, assim a edificação particular se tornaria também uma edificação coletiva: “orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (15). 2º Revelado a natureza das línguas: O falar em línguas é um dom espiritual, uma manifestação do Espírito. O falar em línguas é uma comunicação com Deus e, portanto, edifica a quem fala. Só por essas duas razões fica claro que Paulo não despreza o dom de línguas: “Dou graça a Deus porque falo em outras línguas mais do que todos vós” (18). Uma pergunta tem inquietado a muitos: “Que línguas eram essas?” Só existe uma resposta possível: uma língua ininteligível, tanto para quem fala (14), como para quem ouve (16). Alguns dirão: Mas não eram idiomas desconhecidos? Ora, se nem quem fala conhecia e nem quem ouvia também, como alguém dirá que era um idioma conhecido? Outros retrucarão: Por que o termo usado é “glossa”, o mesmo para idioma? Nada mais razoável já que aquele que fala algo desconhecido se torna estrangeiro para quem ouve (11). Supor que as línguas eram idiomas que podiam se aprendidos elimina o fator divino que estava presente nos dons espirituais, já que tanto o falar como o interpretar são manifestações concedidas pelo Espírito soberanamente a quem lhe apraz.
Essa última observação não pode obscurecer o argumento do apóstolo Paulo. Mesmo sabendo da utilidade das línguas para quem fala: “se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato” (14). A preferência deve ser dada aos dons da palavra quando estivermos diante da igreja, razão porque Paulo prefere cinco palavras inteligíveis a dez mil ininteligíveis!
1Cor.14.20-25
Nesta seção, convocando-os ao amadurecimento recomendado, Paulo faz uma comparação do resultado das línguas e da profecia a partir de textos do Antigo Testamento (Is.28.11,12). Na história de Israel as línguas eram sinais de juízo. Quando se ouvisse o balbuciar desconhecido dos soldados assírios se saberia que o juízo de Deus havia chegado. Ora, o efeito do dom de línguas para os incrédulos seria o mesmo, não resultaria em salvação, no máximo mas em zombaria (23). Mas a profecia tem um efeito oposto. Quando o incrédulo adentra no lugar e ouve em linguagem inteligível a mensagem, então é convencido e isso resulta em salvação (24,25). Se o incrédulo não ouvir uma palavra inteligível ele permanecerá em seus pecados, razão porque as línguas são ditas como sinal para incrédulos. Mas se o incrédulo entende a mensagem, então ele crê e é perdoado, razão porque não se lhe aplica o sinal de juízo das línguas (22).
1Cor.14.26-39
Nesta última parte o apóstolo faz recomendações práticas para o culto cristão. Em síntese, a prática dos dons espirituais no culto público, sejam quais forem, deve objetivar a edificação de toda igreja. Nesse particular, há lugar para as línguas? Temos duas possibilidades: (1) Havendo intérprete: Deve ter o seu uso equiparado ao da profecia, ou seja, comunica-se com toda a igreja. A recomendação de Paulo é que nesses casos haja uma ordem para melhor aproveitamento e aprendizagem. Um após outro deve ser ouvido e julgado pelos demais. Qualquer resistência a estas recomendações valendo-se de justificativas de êxtase deve ser rejeitada, pois “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas”. (2) Não havendo intérprete: Não deve comunicar-se com toda a igreja porque não haverá entendimento. Isso significa um silêncio absoluto? Será que o irmão não poderia vale-se da utilidade particular deste dom? Em função da edificação pessoal Paulo recomenda: “falando consigo mesmo e com Deus”.
A conclusão de Paulo reitera seu argumento central: procurar os melhores dons! Quais são estes? Aqueles que melhor comunicam com toda igreja, no caso em destaque o dom da profecia, ou qualquer outro que use a palavra inteligível. Mas isso significa que o dom de línguas fica obsoleto e sem utilidade? Não! Paulo acrescenta: “não proibais o falar em outras línguas”. Conquanto este dom seja inferior, pois é limitado na sua área de atuação, não significa que não possua nenhuma utilidade.
Propositadamente evitamos falar sobre o caso da comunicação pública das mulheres. Também não examinamos o capítulo 13. Ambos os assuntos ficam para outra ocasião. Que esta breve reflexão sirva para dirimir preconceitos e fortalecer convicções. Certos de que estamos diante da Palavra de Deus que deve ser tomada como mandamento que não pode ser ignorado.
Abraços,
Pr. Claudionor Bezerra