Domingo, Novembro 01, 2009

A ÉTICA DOS SANTOS Ef.5.3-14


A ética dos santos é tema recorrente na segunda parte da Epístola aos Efésios. Por ética dos santos entenda-se o padrão de comportamento que se funda nas verdades eternas reveladas pelo Evangelho. Na estrutura dessa carta é visível o fato de que nos capítulos 1, 2 e 3 o apóstolo se dedica a exposição das verdades, por conseguinte, os capítulos 4, 5 e 6 ele dedica para a exortação. Esse padrão de comportamento que estimula a santidade já havia sido exibido no capítulo anterior e retomado no texto em análise. Nessa passagem, o apóstolo Paulo declara quais tipos de conduta que não é compatível com a ética dos santos e, em seguida, quais os incentivos que estimulam essa ética.

1.CONDUTAS NÃO COMPATÍVEIS COM A ÉTICA DOS SANTOS

É notório o tom de contraste apresentado por Paulo (v.3). Mas, o que Paulo está contrastando? O contraste é com o tipo de vida que caracteriza a sociedade de Éfeso e que não convém, não é compatível com os santos em Cristo. A ética dos habitantes de Éfeso era marcada fortemente pelo erotismo. Essa é a conclusão da análise dos termos usados por Paulo. Pornéia é uma palavra que caracteriza uma diversidade de práticas sexuais ilícitas. Paulo fala ainda da cobiça do corpo de outrem. A imoralidade leva consequentemente a vulgaridade. A vulgaridade pode ser definida como a imoralidade da boca, do falar. Sobre isso algumas expressões merecem destaque: conversação torpe, chocarrices, palavras vãs, etc. Tudo isso aponta para obscenidades que vão desde a profanação do sexo como criação divina até a ridicularização do mesmo através de piadas. É contundente a reação do apóstolo: “nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos”.
Não precisa muito para percebermos como a sociedade contemporânea trata do sexo de modo muito semelhante a sociedade dos efésios. Não faz muito tempo o ator “Pedro Cardoso”, que interpreta o “Augustinho” do seriado da Rede Globo “A Grande Família”, denunciou na ISTO É aquilo que denominou como “pornografia disfarçada”. Segundo ele “a televisão brasileira impõe a pornografia escamoteada em sua programação e deveria responder por crime de pedofilia”. E mais: “Há programas de televisão que se autodenominam reais e nos quais o que se vê lá dentro é totalmente falso a tal ponto de que todo mundo toma banho vestido. É porque aquele banho não é para se lavar, é para produzir cenas de pornografia disfarçada.”
A ética dos santos deve evidenciar um contraste com a pornografia instalada nos meios de comunicação, mas também com as conversações, a pornografia da boca, e toda sorte de conduta que perverte o corpo e o sexo como criação de Deus. Cada cristão deve tomar para si a exortação paulina que declara que isso não convém a santos.

II - INCENTIVOS PARA A ÉTICA DOS SANTOS

Depois de confrontar a ética da sociedade de Éfeso, o apóstolo incentiva os cristãos a desenvolverem um padrão ético digno do status de “santos”. Vejamos a partir de algumas considerações:

2.1 A Convicção do Julgamento (5-6)
Os santos devem saber que toda atitude recebera sua justa retribuição. Deus é revelado nas Escrituras como o Justo Juiz. Logo, toda transgressão necessariamente receberá sua justa punição. E o padrão de vida marcado pelas expressões citadas por Paulo (incontinente, impuro, avarento) será alvo do severo julgamento divino. Esse julgamento pode ser descrito de duas maneiras. Negativamente é a afirmação de que tais pessoas serão excluídas do reino de Cristo e de Deus. O “Dia do Juízo” será um dia de gozo e alegria para os santos (2Tess.1.7), que terão acesso pela graça a herança da fé em Cristo. Positivamente é a constatação que tais pessoas receberão a ira de Deus retribuindo suas obras más. Evidentemente, em todas as épocas a verdade do juízo divino tem sido minimizado por alguns “pseudo” mestres. Estes temem perder popularidade e audiência. Mas a palavra apostólica é contundente: “Ninguém vos engane com palavras vãs”.

2.2 A Realidade da Regeneração (7-14)
Aqueles que serão alvos da ira de Deus são chamados de “filhos da desobediência”. Razão porque os “filhos de Deus”, os nascidos do alto e regenerados, não podem participar do modo de vida ímpio. A realidade da regeneração estabelece um antes e um depois. Quem éramos? Paulo diz que éramos trevas! Ele não diz apenas que estávamos nas trevas. Destarte, agora somos luz! Que incentivo extraordinário para andarmos como filhos da luz! A regeneração se evidenciará nos frutos produzidos por esse padrão de vida: bondade, justiça, verdade. Ao passo que também se fará visível nas escolhas criteriosas que a vida impõe. O regenerado fará sempre a opção por aquilo que é agradável ao Senhor. É notável que no versículo 10, Paulo usa uma expressão que aponta para uma investigação criteriosa (dokimazô). Esse tipo de vida que escolhe e aprova as coisas tendo em vista a glória de Deus, sem dúvida alguma, atrairá a inimizade do mundo. É nesse particular que o confronto é inevitável. Ao regenerado cabe duas atitudes nesse confronto contínuo com as trevas. Primeiro não ser indulgente ou cúmplice com as obras infrutuosas das trevas. Segundo não silenciar, mas reprovar aquilo que por vergonhoso não é compatível com a ética dos santos. O confronto nem sempre é agradável, muitas vezes resulta em inimizades e constrangimentos. Mas, como se estabelecerá a diferença entre as trevas e a luz? Não é esse o resultado pretendido pelo confronto? Senão, vejamos o que diz o apóstolo Paulo: “Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz” (12). A igreja precisa redescobrir sua vocação profética e seu legado de protesto. A igreja precisa denunciar o pecado e reprovar as obras das trevas. Mas isso não acontecerá sem que antes um despertamento sacuda a igreja e a faça acordar. É isso que Paulo clama quando adapta o texto messiânico do profeta Isaías (60.1): “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará” (14).
Abraços,
Pr. Claudionor Bezerra

Domingo, Setembro 27, 2009

Imitadores de Deus Ef. 5.1


A proposta do apóstolo Paulo é no mínimo intrigante: “Sede imitadores de Deus”. É elemento formador da cosmovisão judaica a transcendência de Deus. Conquanto o homem seja criado a imagem e semelhança dEle, uma distância os separa. Ainda que Deus se revele e comunique-se com o ser criado, nem de longe pode o homem, na linguagem de Jó, “desvendar os arcanos de Deus ou penetrar à perfeição do Todo-Poderoso” (Jó.11.7). Então, como pode o homem ser imitador do Deus invisível e transcendente? Essa declaração de Paulo só pode ser compreendida em função da encarnação de Cristo. Isso corrobora com o fato dele declarar a motivação dessa imitação: “como filhos amados”. “Ninguém jamais viu a Deus”, disse o evangelista João, “o Deus unigênito que está no seio do Pai é quem o revelou” (Jo.1.18). Próximo da morte de Jesus, Filipe perguntou: “Mostra-nos o Pai?” (Jo.14.8). Sendo Jesus a perfeita revelação do Pai disse: “Quem vê a mim, vê ao Pai” (Jo.14.9) É a partir daí que podemos entender como podemos imitar a Deus: na medida que imitarmos a Cristo, o Filho Amado, estamos imitando o Pai.

Quando efetivamente somos imitadores de Deus?

1. QUANDO EXISTE ÉTICA NAS ATITUDES

É digno de nota que no contexto dessa afirmação Paulo esteja elaborando sobre diversos preceitos morais. Como afirma John Stott sobre essa passagem: “A ética de Paulo se centraliza em Deus”. É como um Pai recomendando a filhos queridos, e não um tirano exigindo dos seus serviçais que Paulo conduz o argumento. O padrão moral dos filhos de Deus deve revelar sua filiação. Para João Calvino o cerne do argumento é: se de fato somos filhos de Deus então devemos ser seus imitadores. Logo, a ética nas ações é um testemunho da nossa fé. Que o desejo de Deus é que o seu povo manifeste o seu caráter santo é provado pelo Decálogo. Como não nos cabe declinar todas as implicações éticas dos Dez Mandamentos, basta sumariar como Cristo o fez: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Na linguagem de Paulo: “andar em amor”.

2. QUANDO EXISTE GRAÇA NOS RELACIONAMENTOS

Nos versículos que antecedem a recomendação para sermos imitadores de Deus Paulo nos oferece um exemplo prático. Entre outras virtudes ele assevera: “perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou”. Em seguida acrescenta: sede imitadores de Deus. A conclusão é que assim como Deus nos tratou com GRAÇA, devemos ser graciosos nos nossos relacionamentos. Ao perdoarmos estaremos imitando aquele que nos perdoou. Nada torna um cristão mais semelhante ao seu Pai Celestial quando ele desenvolve seus relacionamentos pautados na graça de Deus. Não gera expectativas falsas, não espera receber para depois oferecer, não retribui o mal com o mal, não condiciona o amor ao objeto amado e nem desiste de amar diante das faltas do outro. É evidente que o padrão é extremamente elevado, mas como diz João Calvino: “Não que algum dentre nós tenha atingido tal perfeição, mas devemos almejá-la e nos esforçar por alcançá-la na medida de nossa capacidade”.

3. QUANDO EXISTE SACRIFÍCIO NO SERVIÇO

No versículo 2 há duas palavras que merecem destaque: oferenda e sacrifício. Ambas nos remontam a prática de sacrifícios do Antigo Testamento. Essas palavras são ilustrativas da obra de Cristo por nós. Foi uma oferenda porque Ele voluntariamente a ofereceu. Foi um sacrifício porque envolveu a morte e o derramamento de sangue. Como diz William Hendriksen, tudo isso simboliza uma total rendição a Deus. É nessa base que devemos imitar a Deus imitando a forma em que Cristo se rendeu a Deus. A palavra sacrifício é rara no vocabulário evangélico. Isso porque reflete a sociedade hedonista - que busca o prazer pelo prazer - em que a igreja está inserida. Quando muito, a palavra sacrifício está associada com alguma estratégia de marketing para conseguir arrecadação financeira em nome de Deus. Mas, o tipo de sacrifício que devemos refletir em nossa vida tem relação com as implicações do discipulado cristão, a negação de si mesmo e o tomar a cruz. Imitar a Deus nesse sentido é seguir os passos de Jesus.
No recente livro lançado pela Editora Fiel, “Andando nos Passos de Jesus”, o autor, Larry McCall, depois de uma série de considerações sobre como andar nos passos de Jesus, elabora sobre o preço desse andar. Eis que surge um possível paradoxo. Andar nos passos de Jesus não nos custa nada. Em função de que o dom da vida é gratuito. Mas, ao mesmo tempo, seguir a Jesus nos custa tudo. Segundo McCall é não viver mais para nossa auto-promoção, auto-estima, auto-realização. Não mais vivermos para nossos antigos desejos ou estilos de vida. É perder a vida. Mas, “ao perdemos nossa vida realmente a encontraremos”. E nesse ponto que vale a pena o sacrifício, pois a partir daí poderemos ter a mesma paixão que teve Cristo em se oferecer em sacrifício. E o resultado disso tudo é que tal como Cristo, seremos aroma suave, perfume agradável e aceito por aquele a quem somos desafiados a imitar.


Abraços,


Pr. Claudionor Bezerra

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

As Novas Vestes do Cristão Ef.4.25-32


As vestes do novo homem em Cristo é completamente diferente da antiga roupa do velho homem. Razão porque ele manifestará em diversas áreas, virtudes que fluem dessa nova vida como um ribeiro de uma fonte. Apesar de não ser muito comum nos dias atuais a exigência de valores e padrões morais, na vida cristã é diferente, e a despeito da dificuldade de muitos líderes em promover exortações morais, não devemos rebaixar o padrão de Deus para o seu povo.

Vejamos algumas áreas da vida de um cristão em que essas virtudes se manifestarão.

I – A VERDADE

Mentira aqui significa falsidade, astúcia, hipocrisia, meias verdades etc. Em síntese: agir fraudulentamente com alguém. O cristão tem o compromisso de falar a verdade com todos, mas principalmente com os da família da fé. E a razão dessa imposição legítima é o tipo de vínculo que liga um cristão ao outro. No início do capítulo em estudo, o apóstolo declarou que deveríamos envidar todo esforço para guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Como já analisamos, a unidade cristã é a maior expressão do andar digno exigido pelo chamado que recebemos. Além do que essa unidade é espiritual antes de ser social. Logo, agir com engano para com alguém membro desta família é um comportamento contraditório com a fé que professamos. Ademais, uma palavra deve ser destacada, Paulo não diz que somos membros da igreja no sentido de uma instituição, mas somos membros uns dos outros. Noutras palavras, eu tenho parte com você e você tem parte comigo.
II – A IRA JUSTA
Essa recomendação é um eco do que está registrado no Salmo 4.4. Cujo verbo no hebraico (ragaz) significa tremer ou ser agitado pela ira. A pergunta que muitos podem fazer é: “Existe ira justa?” A resposta é afirmativa. Mas antes de refletirmos sobre a ira justa é bom relembrarmos quando a nossa ira é uma ofensa a Deus: (1) Quando nos iramos por razões sem importância. (2) Quan-do na nossa ira excedemos nas emoções. (3) Quando nos iramos contra os outros por causa dos nossos próprios erros. Essas são apenas alguns casos de como a ira se torna pecaminosa por dá evasão aos afetos carnais. O reformador João Calvino ainda alerta que quando a nossa ira for dirigida aos outros, “que nos iremos contra seus erros em vez de nos irarmos contra suas pessoas”.
Quando é que nossa ira é justa? Quando envolva razões que desprestigie o Evangelho e embace a glória de Deus. Quando a justiça esteja sendo tolhida e o nosso silêncio seja um fator agravante. Enfim, tantas outras situações poderiam ser mencionadas, mas o apóstolo nos adverte sabendo da tendência pecaminosa da nossa alma. Se não pusermos um limite na nossa ira ela logo se transformará em pecado. Razão porque o diabo aproveitando essa vantagem ganhará terreno na nossa vida. Então, “nunca vá pra cama irado”! Ou seja: “não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Ainda o salmista afirma: “falai com o vosso coração sobre a vossa cama, e calai-vos” (Sl.4.4).

III – A HONESTIDADE
Aqui estamos diante de um dever de fazer e não-fazer. Comecemos pelo último. O furto não pode ser reduzido apenas aos crimes aos quais haja previsão legal, mas até mesmo aqueles que ninguém denuncia ou percebe. Aqui inclui as coisas grandes e pequenas. O cristão tem o dever de fazer diferente. Trabalhando com as próprias mãos suprir suas necessidades pessoais, mas indo além, ajudando aqueles que dele necessite. Mas o trabalho do cristão não é algo indiscriminado, o apóstolo o qualifica como devendo ser algo “que é bom”. Que nenhum cristão seja motivo de escândalo pelo tipo de trabalho que realiza.

IV – A CONVERSAÇÃO
Tudo aquilo que provoca vergonha moral é indecoroso para o cristão. É preciso que o cristão revele com sua boca aquilo que ocorreu no seu coração. Não cabe para um cristão “palavrões”, “piadas profanas”, “expressões dúbias” ou qualquer outro artifício da linguagem que não acrescente a quem ouve. Nem de brincadeira? Não! Ao cristão cabe uma palavra que transmita graça. Não acredito que isso seja sinônimo de uma sisudez rígida, de alguém que não sorri ou não se diverte. Mas, é preciso cuidado com aquilo que nos arranca gargalhadas, muitas vezes, e até em alguns púlpitos, a comédia com coisas espirituais torna trivial verdades que deveriam ser tomadas com a maior reverência. Razão pela qual o apóstolo acrescente uma constatação da mais alta importância: alguém pode estar se divertindo com coisas que, e ao mesmo tempo, o Espírito está se entristecendo.

V – OS RELACIONAMENTOS
O apóstolo traz uma série de atitudes que prejudicam e destróem relacionamentos: amargura, ira (injusta e desmedida), cólera, gritaria, difamação e malícia. É tão claro que dispensa comentários, como também é claro o comportamento oposto que deve caracterizar os relacionamentos dos cristãos: bondade, paciência e perdão. Sobre este último, como não poderia deixar de ser, um lembrete: devo ter uma postura quanto ao perdão lembrando-me da postura que Deus em Cristo teve comigo.

O padrão da vida do cristão é extremamente elevado em comparação com a prática mundana. Mas devemos estar seguros que, isso não nos é exigido como se tivéssemos capacidade de realizar sozinhos. O Espírito nos capacitará para tanto, razão porque o apóstolo dirá em seguida que o nosso padrão deve ser não menos que imitadores de Deus.
Abraços,
Pr. Claudionor Bezerra

Sábado, Agosto 01, 2009

Conceito Reformado de Vocação Eficaz

Palestra realizada na Conferência Teológica 2009 da Igreja Evangélica Congregacional de Macaparana-PE (Pr. Severino Carlos).

O objetivo foi traçar um desenvolvimento histórico (uma espécie de arqueologia do saber) da doutrina chamada pelos puritanos de VOCAÇÃO EFICAZ. Passando desde Pelágio até a Confissão de Fé de Westminster, o propósito foi fornecer elementos para julgar a importância histórica da "Vocação Eficaz" e o contexto histórico desse conhecimento doutrinário no século XVI e XVII.

O vídeo com a apresentação usada na palestra foi dividido em três partes para facilitar o upload.





Quinta-feira, Julho 30, 2009

A ORDENANÇA DO BATISMO


As duas únicas ordenanças cristãs são: o batismo e a ceia. São assim chamadas porque estão ligadas a uma ordem (Mt.28.18-20; Lc.22.19). Outros preferem enfocar não a ordem dada, mas a ordem obedecida, assim designam o batismo-ceia como sacramento, do latim sacramentum, que significava um juramento de fidelidade.
O batismo é realizado nas igrejas protestantes/evangélicas de duas maneiras:
a) Imersão: Quando o batizando é mergulhado totalmente na água, podendo ser um tanque, piscina, rio ou em qualquer lugar que seja adequado para essa cerimônia;
b) Aspersão: Quando o batizando recebe a aspersão da água sobre a cabeça. Esse tipo de batismo não está limitado a nenhum lugar geográfico. Essa é a maneira como as Igrejas Evangélicas Congregacionais batizam os novos convertidos.

O QUE É ESSENCIAL NA CERIMÔNIA DO BATISMO?
Alguns afirmarão que o essencial na cerimônia do batismo é que a pessoa que esteja sendo batizada seja mergulhada totalmente nas águas. Normalmente os que sustentam essa opinião não aceitam como válido o batismo administrado por aspersão.
Vejamos porque esse tipo de postura é equivocada e sem fundamentação bíblica:
1) Jesus em nenhum lugar afirmou que o batizando devesse ser mergulhado totalmente na água. Ele não descreveu com detalhes a administração do batismo pela razão de que esta prática já era amplamente conhecida no meio judaico. E como veremos adiante, os rituais de purificação do Antigo Testamento se davam por aspersão.
2) Apesar da palavra batismo (baptismo) significar imersão, esse não é o único uso da palavra. Batismo significa lavagem, derramamento, purificação, entre outros usos.

a) Antes da refeição os judeus se lavavam (batizavam) num ritual de purificação:
Lc.11.37,38: “Ao falar Jesus estas palavras, um fariseu o convidou para ir comer com ele; então, entrando, tomou lugar à mesa. O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (ebaptistê) primeiro, antes de co-mer.”
b) Até mesmo objetos eram lavados (batizados) num ritual de aspersão:
Mr.7.4: “quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem (baptisôntai); e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem (baptismous) de copos, jarros e vasos de metal e camas,”
c) A palavra batismo é usada até mesmo quando não existe água:
Mr.10.37-40: “Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.”

Rm.6.3,4: “Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cris-to Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”

1Cor.10.1,2: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés.”

At.10.44,45: “Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo (batismo do Espírito Santo).”

Tudo o que foi dito até não significa que o batismo por imersão seja inválido, até porque o importante no batismo não é a quantidade de água. Mas simplesmente que em nenhum lugar das Escrituras encontramos fundamento para afirmar que o batismo realizado por imersão é o único válido. Todavia, a Bíblia fornece fortes indícios que o batismo por aspersão era o batismo conhecido pelos judeus e pelos apóstolos, vejamos:

JOÃO BATISTA BATIZAVA POR ASPERSÃO
Alguns precipitadamente dirão que João Batista batizava por imersão pelo fato dele o fazer no rio Jordão. O fato de João Batista batizar num rio não prova que ele mergulhava as pessoas totalmente na água, mas sim, que ele precisava de muita água para batizar os que vinham ao seu encontro.
Mt.3.5,6: “Então, saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circun-vizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.”

É o caso do eunuco batizado por Felipe (At.8.36). Ora, os viajantes não carregavam depósitos de água, exceto a de beber, por isso, ao avistarem a água, desceram e ele foi batizado.

1) O batismo de João foi identificado como o ritual de purificação de pecados do Antigo Testamento
João Batista conclamava as pessoas para o batismo de arrependimento com água, preparando o caminho daquele que iria batizar com o Espírito Santo.

Jo.1.33: “Eu não o conhecia; aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo.”

O batismo de João Batista não era algo novo para os judeus, pois o Antigo Testamento profetizava que quando o Messias viesse ele iria purificar o povo através da aspersão da água.

Ez.36.25-27: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.”

O próprio Moisés, que havia aspergido água no povo, prometeu a vinda de um profeta maior que ele.

Hb.9.19: “porque, havendo Moisés proclamado todos os mandamentos segundo a lei a todo o povo, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, e lã tinta de escarlate, e hissopo e aspergiu não só o próprio livro, como também sobre todo o povo,”

Quando os fariseus viram o batismo de João Batista, identificaram imediatamente com as profecias de purificação prometidas no Antigo Testamento, e assim o fizeram porque João Batista estava aspergindo água naqueles que estavam sendo batizados.


Jo.3.25: "Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito a purificação"

Jo.1.19-21; 24,25: “Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe envia-ram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: Quem és tu? Ele confessou e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. Então, lhe perguntaram: Quem és, pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não [...] Ora, os que haviam sido enviados eram de entre os fariseus. E perguntaram-lhe: Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?”

2) O batismo de João fazia parte da Lei, por essa razão o próprio Jesus foi batizado por ele.

Mt.3.13-15: “Por esse tempo, dirigiu-se Jesus da Galiléia para o Jordão, a fim de que João o batizasse. Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.”

Ml.3.1,3: “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; [...] purificará os filhos de Levi”

OS APÓSTOLOS BATIZAVAM POR ASPERSÃO
O batismo que os apóstolos realizaram em obediência a ordem de Jesus, não era diferente do batismo de João Batismo no que diz respeito à maneira. Mas era diferente quanto ao significado.
Com João Batista o batismo era de preparação para o Messias que vinha, já os apóstolos foram ordenados a batizarem em nome daquele que já veio.
A purificação realizada por João Batista (batismo com água) era um sinal da puriricação superior prometida que estava por vir (batismo com Espírito Santo). Essa cumpriu-se no dia de Pentecostes na descida do Espírito e ainda hoje ocorre na vida daquele que recebe o Espírito no momento da sua conversão.
Assim, o batismo com água é o sinal externo da purificação dos pecados operado pelo Espírito no interior de cada pessoa.

Tt.3.5: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,”

At.2.38: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batiza-do em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.”

At.22.16: “E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.”


O batismo não salva, nem a água tem poder de tirar pecados, mas ele é o testemunho externo da consciência de purificação interna.

1Pe.3.20,21: “os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longani-midade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água, a qual, figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a remoção da imun-dícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo;”

Que o batismo registrado em Atos dos Apóstolos era por aspersão pode ser deduzido pelos seguintes argumentos:
e) Três mil batismos na pregação de Pedro (At.2.41);
f) O batismo de Paulo na casa de Ananias (At.9.18);
g) O batismo de Cornélio em sua residência (At.10.47);
h) O batismo do carcereiro na prisão (At.16.33);

CONCLUSÃO
O batismo deve ser ministrado com água àqueles que confessando a Jesus Cristo como Senhor e Salvador pessoal, desejam em ato de obediência submeterem-se a esta ordenança legada pelo Senhor Jesus. Não obstacula-mos na jornada cristã os irmãos que foram imersos na água. Cremos que a quantidade de água não irá alterar o significado da essência do Batismo. Contudo, não deixamos de ensinar e batizar por aspersão. Isto por causa dos ensinamentos bíblicos em que cremos e que julgamos interpreta-los com fidelidade. Abaixo alguns pontos relevantes:

1) Todos os que confessam Jesus como Salvador e Senhor devem fazê-lo através do batismo;
2) É fundamental que aquele que batiza seja um ministro vocacionado por Deus e autorizado através da ordenação;
3) É requisito fundamental que seja com água como símbolo de purificação e em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – o Deus Triúno: autor da salvação.


Abraços,


Pr. Claudionor Bezerra

Sábado, Julho 25, 2009

A Diferença da Vida Cristã Ef. 4.17-24


Culto de Doutrina: 25 de Julho de 2009

É da maior importância para os cristãos demonstrarem a diferença no seu viver. Razão porque o apóstolo Paulo, solenemente e sob autoridade divina, convoca um andar diferente daquele praticado pelo ímpios. Isto posto, o apóstolo traça um paralelo que exibirá o padrão da vida dos ímpios e da vida dos cristãos.

I - A MANEIRA ÍMPIA DE VIVER
É evidente que Paulo aqui expõe um padrão de conduta que caracteriza os ímpios, devendo ficar claro que entre estes mesmos existe uma diferenciação de graus de impiedade. Fato que é facilmente comprovado pela prática. Vejamos como Paulo descreveu o padrão da vida do ímpio: 1º Impiedade na mente. A maneira de pensar do ímpio é marcada pela futilidade. Esse conhecimento é inútil não porque não possa trazer nenhum benefício, seria uma afirmação temerária diante de tantas conquistas que o saber humano tem elaborado. Destarte, o entendimento humano permanece em trevas enquanto ele continua alienado do conhecimento do verdadeiro Deus. 2º Impiedade no coração. A palavra que Paulo usa para dureza de coração é “porosis”. Essa palavra grega era empregada para referir-se a placas de mármore. Em função dessa dureza de coração é que existe a promessa de um novo coração. 3º Impiedade no comportamento. O que caracteriza o andar do ímpio é a insensibilidade, isso culmina numa entrega a “dissolução”. Por conta dessa insensibilidade, a impureza é praticada com avidez, o que significa uma entrega espontânea e prazerosa ao pecado. Valores morais tornam-se descartáveis e coisas que outrora eram tidas por vergonhosas, são recebidas e praticadas abertamente.

II - A MANEIRA CRISTÃ DE VIVER
Tendo exposto o padrão de vida ímpia, Paulo constata que esse estilo de vida é incompatível com aquilo que de Cristo pode ser apreendido. Algumas lições a respeito do viver cristão: 1° A vida cristã exibe uma educação moral. Paulo usa três verbos que demonstram essa realidade: aprender, ouvir e instruir. Não é sem razão que um dos propósitos dos dons espirituais, visto na seção anterior, é fortalecer nossas convicções. Não existe vida cristã sem o processo de aprendizado, e este procede do ensino fiel das Escrituras. Um fato notável é que, quando o cristão está sendo instruído filemente nas Escrituras por alguém, deve considerar-se instruído pelo próprio Cristo. 2º Se não existe educação moral, a salvação é questionável. Essa é a constatação do apóstolo: “se é que...”. Isso nos conduz a uma conclusão a respeito da missão da igreja. Ele deve ser agente de transformação moral, não um espaço para soerguer auto-estima ou inflar egos vaidosos. Também é dever daquele que confessa a Cristo examinar sua experiência espiritual e constatar essa transformação. 3º A salvação consiste na realidade de um “antes” e um “depois”. O “antes” é o trato passado, o velho homem. No velho homem havia um processo contínuo de corrupção, capitaneado pela concupiscência do engano. Mas o “depois” é diferente, consiste no novo homem. No novo homem também há um processo contínuo, mas de renovação. Essa renovação contínua ocorre tanto na mente, quanto no comportamento. É uma nova criação orquestrada pelo próprio Deus, em direção a justiça e retidão procedentes da verdade.

Abraços,

Pr. Claudionor Bezerra

Qual o propósito dos dons espirituais? Ef.4.13-16


Culto de Doutrina: 11 de Julho de 2009

A finalidade dos dons espirituais tem relação com a coletividade. Os dons existem em função do benefício de toda igreja. Por essa razão é que a palavra do apóstolo é inclusiva: “até que todos cheguemos a unidade da fé”. É uma contradição da sua finalidade essencial a prática dos dons resultar em divisão ou segregação.
Mas quais propósitos podem ser alistados como finalidade dos dons espirituais à luz desse texto?

1º Para aperfeiçoar o nosso caráter. Nosso caráter é aperfeiçoado na medida que nos tornamos mais semelhantes a Jesus. Uma vez que o alvo é Cristo, o apóstolo faz uso de três expressões que apontam para essa realidade. a) Conhecimento pleno do Filho de Deus. Esse tipo de conhecimento ultrapassa uma compreensão limitada do Jesus histórico. Assim como Pedro respondeu por revelação divina, esse conhecimento “pleno” alberga o entendimento de Cristo como o Messias Divino. b) Perfeita varonilidade. Cristo foi o segundo Adão, o homem perfeito. Ele é o ideal de ser humano a ser buscado. c) A estatura da plenitude de Cristo. Cristo é pleno de todas as qualidades que devemos possuir. Chegar a altura do Cristo que é pleno de todas as virtudes é o alvo de cada cristão.

2° Para fortalecer as nossas convicções. Quando Jesus concedeu homens como dons (4.11) para a igreja, sua intenção era firmar os cristãos nas verdades eternas. Isso evita que os cristãos se tornem superficiais e ávidos pelas supostas “novas verdades”. A imagem de uma criança agitada de um lado para o outro, ou ainda de um barco sem leme levado ao dispor dos ventos, ilustra o efeito nefasto dos falsos ensinos daqueles que dissimuladamente introduzem o erro.

3° Para alicerçar nosso crescimento. O crescimento bíblico só é possível se estiver fundamentado na verdade e no amor. Excluir um em detrimento do outro produz um crescimento deficiente. Além do que somente através da verdade e do amor o crescimento será pleno. A igreja cresce em tudo. A imagem que o apóstolo tem é do corpo humano. Se houver a justa cooperação de cada parte, devidamente ajustada e consolidada, o corpo cresce naturalmente. Assim também com a igreja. Como o corpo humano, o natural é a igreja crescer, caso isso não acontece alguma anomalia existe e deve ser identificada e tratada.

Os dons espirituais são dádivas maravilhosas de Deus que atendem a necessidade do corpo de Cristo. Aquele que despreza a assistência aos cultos, o serviço cristão organizado e a prática missionária cotidiana traz prejuízo para si mesmo e para todo o corpo de Cristo.

Abraços,

Pr. Claudionor Bezerra

Segunda-feira, Julho 13, 2009

A RESPEITO DOS DONS ESPIRITUAIS: Comentários de 1Coríntios 12 e 14


Com esta expressão o apóstolo Paulo inicia o tratamento sobre os dons espirituais no contexto do culto da igreja de Corinto. O objetivo do apóstolo não é desestimular a prática dos mesmos, mas levar aquela comunidade ao conhecimento adequado em função do maior aproveitamento e benefício dos dons para a igreja.
O objetivo desta breve reflexão é apontar a idéia central de cada parágrafo que compõe os capítulos 12 e 14. Faremos isso utilizando uma linguagem de fácil entendimento. Ademais, o texto apresentado atende a solici-tação de alguns alunos para transcrever os comentários feitos desses capítulos em sala de aula. Assim, essa reflexão deve ser tomada como um diálogo construtivo e que produza mais amadurecimento e menos ignorância a respeito dos dons espirituais.
Então, Bíblia aberta e mãos a obra...
1Cor.12.1-3
É contra a ignorância que Paulo se manifesta. A ignorância não é compatível com o cristianismo. De modo que, qualquer iniciativa para deixar alguém na obscuridade a respeito de qualquer que seja o assunto da vida cristã deve ser repudiado. O esforço de Paulo é para fazer aqueles cristãos “compreender”. Essa nova postura não encontrava paralelo com o antigo viver dos coríntios. Outrora, eram movidos pelos ídolos mudos. Essa postura antiga não foi imposta sem a aceitação deles, uma vez que Paulo diz que eles mesmos se permitiam serem guiados pelos ídolos. Agora eles deveriam envidar esforços para compreender a nova vida e por meio desse aprendizado serem guiados pelo Senhor Jesus. A primeira coisa que deve ser compreendida é a relação entre o Espírito de Santo e o Senhor Jesus. Parece-nos que, para alguns daquela igreja, a simples afirmação do senhorio de Cristo não era suficiente para identificar a atuação do Espírito Santo na vida de um cristão. A fim de corrigir qualquer equívoco nesse assunto, Paulo explicitamente declara que, o que alguém confessa a respeito de Jesus revela se o mesmo está sobre a influência do Espírito Santo. É uma relação de causa e efeito. Ninguém pode confessar o senhorio de Cristo se isto não for por intermédio do Espírito Santo. Em revés, o Espírito não participa daquele que declara Cristo como anátema. A esta altura cabe uma pergunta: O que tudo isso tem com os dons espirituais? Os parágrafos que seguem demonstram que alguns valorizaram tanto alguns dons, o dom de línguas em especial, que não reconheciam o Espírito Santo naqueles que não possuíam este dom. Isso era a primeira ignorância que o apóstolo procura dissipar. O que testifica da atuação do Espírito Santo na vida dos membros da igreja de Jesus não é a manifestação de nenhum dom em particular, mas a confissão do senhorio de Cristo. Esta confissão não deve ser tomada como um mero assentimento intelectual, mas uma disposição de aceitar todas as implicações do discipulado cristão.

1Cor.12.4-11
No primeiro momento (4-6) o apóstolo faz três afirmações paralelas com o mesmo sentido. Os dons, os serviços e as realizações são diversos. Mas o Espírito, o Senhor e o Deus Pai são o mesmo. Isso significa que na diversidade existe unidade. Se considerarmos que os crentes daquela igreja estavam privilegiando alguns dons em detrimento de outros, então aqui Paulo corrige essa deturpação. O fato dos dons espirituais terem a mesma procedência deveria levar os crentes a não promover acepção por causa deles.
Em seguida o apóstolo explica a razão dessa diversidade. É notável que quando ele menciona “manifestação do Espírito” está atribuindo aos dons espirituais uma atuação sobrenatural. Sim! Sobrenatural. Apesar de o termo ser bastante desgastado nos dias atuais, não devemos nos espantar com esta expressão. Os dons são atividades que excedem o natural, são manifestações do Espírito Santo de Deus que, ainda que em cooperação, excedem a capacidade ordinária do indivíduo. Note que não depende do próprio indivíduo decidir qual dom irá exercer. Essa manifestação é concedida. É uma dádiva individualizada. Paulo conclui essa unidade de pensamento exibindo qual o propósito dessa manifestação graciosa e pessoal: um fim proveitoso. Conquanto nesse parágrafo o apóstolo não declare explicitamente, adiante ficará claro que esse fim proveitoso está relacionado com a edificação de toda a igreja.
No contexto da diversidade Paulo faz menção de uma lista exemplificativa. Não existe nenhuma sugestão de que esta seja uma lista taxativa. Nem aqui e nem em qualquer outro lugar das Escrituras existe tal lista taxativa de dons espirituais. Isso deve nos fazer cautelosos em pelo menos dois aspectos: (1) Afirmar quantos e quais são os dons espirituais. É certo que podemos nos utilizar das listas que o Novo Testamento apresenta, mas não devemos por limites naquilo que a Bíblia não limitou. (2) Definir como esses dons eram exercidos. Nesse particular é preciso cuidado com a especulação. Qual a diferença entre a palavra de sabedoria e a palavra do conhecimento? E entre a revelação e a doutrina? Como esse dom da fé se manifesta? O que distingue as operações de milagres e os dons de curar? Por mais que aceitemos uma ou outra distinção possível, sempre haverá algumas dúvidas sobre a atuação deles. Destarte, uma coisa é certa e segura. Todos os dons, sejam quais forem, são oriundos do Espírito que os concede de modo soberano e individualmente.

1Cor.12.12-31
Apesar de ser uma unidade textual mais longa, não é difícil sintetizar o ponto central: A comparação da igreja com o corpo humano. Essa comparação exibe de modo claro a diversidade na unidade. Muitos membros e um só corpo. Sobre essa comparação algumas considerações: (1) Quando começamos a fazer parte do corpo? A resposta a essa indagação encontra-se na atuação do Espírito Santo. Sem entrar nas discussões a respeito da relação desse texto com o batismo com o Espírito Santo no livro de Atos dos Apóstolos, é sufici-ente afirmar que todo cristão, seja qual for sua procedência (judeus, gregos, escravo, livre, etc) só é membro do corpo de Cristo porque foi inserido (batizado) por intermédio do Espírito Santo. Essa mesma relação é exemplificada a partir de outra ilustração. Todos aqueles que participam do corpo bebem do mesmo Espírito. Com isso Paulo aponta uma origem única para todos os cristãos. Diante disto, não é certo nem direito, promover divisões por causa dos dons espirituais concedidos graciosamente pelo Espírito que nos uniu no mesmo corpo. (2) De onde vem a diversidade?Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve” (18). Este versículo por si só anula qualquer sugestão de divisão em razão das diferenças dos dons. Essas diferenças têm origem no próprio Deus. Se Deus assim o fez é porque isso melhor o glorifica e nos beneficia também. (3) Como lidar com a diversidade? Essa última questão trata da relação entre os mais diversos dons. Nem todos têm a mesma honra, mas todos são necessários. Todavia, Deus cuidou em dar mais honras ao que menos tinha para evitar divisões. Paulo apresenta uma nova lista, diferente da apresentada anteriormente, agora ele alista através de uma ordem estabelecida pelo próprio Deus (28). A conclusão mais uma vez reforça a diversidade, nem todos têm os mesmos dons. Mas deixa-nos com uma sugestão: Procurar os melhores dons!
Quais são os melhores dons? Antes de dar qualquer orientação sobre essa procura, Paulo apresenta uma procura mais excelente: o caminho do amor. Para o nosso propósito, essa digressão do apóstolo será vista noutra ocasião. Em função de continuarmos a discussão a respeito da busca dos melhores dons veremos imediatamente o capítulo 14.
1Cor.14
No primeiro versículo Paulo reafirma o caminho do amor, sem prejuízo da procura dos dons espirituais. Mas qual o melhor dom a ser procurado? Do modo claro e inequívoco o apóstolo declara: “MAS PRINCIPAL-MENTE QUE PROFETIZEIS”! Destaquei essa expressão porque ela dá o tom de todo o capítulo 14. Antes de continuar a análise, algumas considerações: (1) O argumento não é proibitivo, mas regulatório. Certa vez alguém me disse: “Paulo não proíbe o falar em línguas na epístola aos coríntios?” Ora, não há nada mais falso de acordo com o texto. Basta percebermos a conclusão de todo argumento: “procurai com zelo o dom de profetizar e não proibais o falar em outras línguas” (39). (2) A natureza da profecia. O mais importante a destacar com respeito a natureza da profecia é o fato da mesma ser inteligível a quem ouve. Seu conteúdo pode ser entendido por quem escuta. Alguns, não satisfeitos, produzem uma série de indagações: “São preditivas?” “São revelacionais?” “Existem em função da ausência do fechamento do Canon?” “São interpretações místicas do Antigo Testamento?” Minha posição é que não é possível definir com precisão o conteúdo dessas profecias, senão o fato de que através delas Deus se comunica inteligivelmente com quem ouve e promove salvação (24-25).

1Cor.14.1-5
Não resta dúvida que Paulo traça um paralelo entre línguas e profecia. Possivelmente a razão seria o uso inadequado das línguas naquela igreja. O resultado da comparação é que a profecia é superior as línguas porque ela se dirige aos homens para edificar, exortar e consolar. Alguém poderia indagar: Então as línguas devem ser abandonadas? São inúteis? Já havíamos advertido que não é propósito do apóstolo excluir a presença das línguas no culto. A razão parece está na utilidade particular das línguas para aquele que fala. Enquanto a profecia é o homem que se dirige aos homens, as línguas é o homem que se dirige a Deus. Precisamente por essa razão é que ela se torna um mistério para quem ouve. Dessa maneira existe um benefício para quem fala, a si mesmo se edifica. Paulo reconhecendo a utilidade das línguas afirma: “Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas...”. Mas, em comparação com a profecia, as línguas não trazem benefício para toda igreja, visto que ninguém compreende, razão porque a profecia é superior. No entanto, se a mesma língua for interpretada, ou seja, traduzida para uma língua inteligível, então ela se equipara a profecia pois atinge o propósito de alcançar toda igreja.
1Cor.14.6-19
A preocupação do apóstolo é se a igreja toda está sendo beneficiada. Assim, os dons que comunicam as verdades devem ser tidos como mais úteis para a coletividade, tais como: revelação, ciência, profecia e doutrina. Qual a diferença entre eles? É mais fácil responde qual a semelhança: todos emitem uma palavra compreensível. Paulo usa duas ilustrações: (1) A linguagem da música. Se um som musical não enquadrar-se na linguagem própria, notas musicais, ninguém as entenderá. (2) A linguagem bélica. Na guerra não era diferente. A trombeta possuía determinados sons que tinha uma linguagem de comando própria, se ignorada poderia causar confusão. Este dois exemplos são suficientes para demonstrar que há muitas vozes no mundo, ou seja, muitos tipos de linguagem. Esse exemplo explica porque as línguas são inferiores aos dons de revelação, ciência, profecia ou doutrina (que bem podem ser chamados de dons da palavra). Ela não é entendida por aquele que ouve.
Antes de encerrar essa sessão duas observações da maior importância: 1º Revelado o problema nevrálgico dos coríntios: Eles estavam satisfeitos com a edificação particular (línguas) e ignoravam a edificação coletiva (palavra). Não é razoável imaginar que tudo aquilo que ocorria naquela igreja era desprezível, carnal ou demoníaco como alguns supõe. Aqueles irmãos careciam de amadurecimento, por isso a ordem de Paulo: “procurai progredir”! Como eles poderiam progredir? Interpretando as línguas faladas, assim a edificação particular se tornaria também uma edificação coletiva: “orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (15). 2º Revelado a natureza das línguas: O falar em línguas é um dom espiritual, uma manifestação do Espírito. O falar em línguas é uma comunicação com Deus e, portanto, edifica a quem fala. Só por essas duas razões fica claro que Paulo não despreza o dom de línguas: “Dou graça a Deus porque falo em outras línguas mais do que todos vós” (18). Uma pergunta tem inquietado a muitos: “Que línguas eram essas?” Só existe uma resposta possível: uma língua ininteligível, tanto para quem fala (14), como para quem ouve (16). Alguns dirão: Mas não eram idiomas desconhecidos? Ora, se nem quem fala conhecia e nem quem ouvia também, como alguém dirá que era um idioma conhecido? Outros retrucarão: Por que o termo usado é “glossa”, o mesmo para idioma? Nada mais razoável já que aquele que fala algo desconhecido se torna estrangeiro para quem ouve (11). Supor que as línguas eram idiomas que podiam se aprendidos elimina o fator divino que estava presente nos dons espirituais, já que tanto o falar como o interpretar são manifestações concedidas pelo Espírito soberanamente a quem lhe apraz.
Essa última observação não pode obscurecer o argumento do apóstolo Paulo. Mesmo sabendo da utilidade das línguas para quem fala: “se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato” (14). A preferência deve ser dada aos dons da palavra quando estivermos diante da igreja, razão porque Paulo prefere cinco palavras inteligíveis a dez mil ininteligíveis!

1Cor.14.20-25
Nesta seção, convocando-os ao amadurecimento recomendado, Paulo faz uma comparação do resultado das línguas e da profecia a partir de textos do Antigo Testamento (Is.28.11,12). Na história de Israel as línguas eram sinais de juízo. Quando se ouvisse o balbuciar desconhecido dos soldados assírios se saberia que o juízo de Deus havia chegado. Ora, o efeito do dom de línguas para os incrédulos seria o mesmo, não resultaria em salvação, no máximo mas em zombaria (23). Mas a profecia tem um efeito oposto. Quando o incrédulo adentra no lugar e ouve em linguagem inteligível a mensagem, então é convencido e isso resulta em salvação (24,25). Se o incrédulo não ouvir uma palavra inteligível ele permanecerá em seus pecados, razão porque as línguas são ditas como sinal para incrédulos. Mas se o incrédulo entende a mensagem, então ele crê e é perdoado, razão porque não se lhe aplica o sinal de juízo das línguas (22).
1Cor.14.26-39
Nesta última parte o apóstolo faz recomendações práticas para o culto cristão. Em síntese, a prática dos dons espirituais no culto público, sejam quais forem, deve objetivar a edificação de toda igreja. Nesse particular, há lugar para as línguas? Temos duas possibilidades: (1) Havendo intérprete: Deve ter o seu uso equiparado ao da profecia, ou seja, comunica-se com toda a igreja. A recomendação de Paulo é que nesses casos haja uma ordem para melhor aproveitamento e aprendizagem. Um após outro deve ser ouvido e julgado pelos demais. Qualquer resistência a estas recomendações valendo-se de justificativas de êxtase deve ser rejeitada, pois “os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas”. (2) Não havendo intérprete: Não deve comunicar-se com toda a igreja porque não haverá entendimento. Isso significa um silêncio absoluto? Será que o irmão não poderia vale-se da utilidade particular deste dom? Em função da edificação pessoal Paulo recomenda: “falando consigo mesmo e com Deus”.

A conclusão de Paulo reitera seu argumento central: procurar os melhores dons! Quais são estes? Aqueles que melhor comunicam com toda igreja, no caso em destaque o dom da profecia, ou qualquer outro que use a palavra inteligível. Mas isso significa que o dom de línguas fica obsoleto e sem utilidade? Não! Paulo acrescenta: “não proibais o falar em outras línguas”. Conquanto este dom seja inferior, pois é limitado na sua área de atuação, não significa que não possua nenhuma utilidade.

Propositadamente evitamos falar sobre o caso da comunicação pública das mulheres. Também não examinamos o capítulo 13. Ambos os assuntos ficam para outra ocasião. Que esta breve reflexão sirva para dirimir preconceitos e fortalecer convicções. Certos de que estamos diante da Palavra de Deus que deve ser tomada como mandamento que não pode ser ignorado.

Abraços,

Pr. Claudionor Bezerra