Sábado, Novembro 14, 2009

A EXPERIÊNCIA DO SAGRADO CRISTÃO EM UMA SOCIEDADE PÓS-MODERNA


(Texto extraído de um trabalho para a disciplina "Estudo em Ciências da Religião da CESUMAR")

Contra o Ocidente pesa a acusação de nunca ter sido sinceramente religioso, “mas profundamente greco-romano, discursivo e expansionista”1. Essa assertiva encontra fundamento na recusa da metafísica ocorrida entre os séculos XII e XVI. Para o sociólogo Max Weber, na Europa houve um processo de desencantamento das concepções religiosas do mundo e uma reinterpretação da fé a luz de novas esferas de valores que constitui aquilo que se denominou o espírito do mundo capitalista.

O ascetismo cristão, que de início fugia do mundo para a solidão, já o tinha dominado a partir do mosteiro e pela igreja. Com isso, todavia, não alterava o caráter natural, espon-tâneo da vida cotidiana no século. Agora ele adentrou no mercado da vida, [...] tentou penetrar exatamente naquela rotina diária com sua meticulosidade, e amoldá-la a uma vida racional, mas não deste mundo, nem para ele.2
Como ensina Reis, o conceito de modernidade, assim como o próprio processo que ele designa revelam uma tensão: “no início representara uma ruptura com o passado de universalismo cristão e abrira um presente secularizado”3. A experiência do sagrado cristão na modernidade revela uma tensão entre valores tidos como contraditórios, o espírito da fé e o espírito do século. Deus não seria totalmente abandonado, mas não mais reinaria sozinho.

Na pós-modernidade essa tensão se desfaz porque se abre para a pluralidade e o ecletismo predomina, o sentido do sagrado se decompõe e se esfacela. A pós-modernidade tem relação com o novo momento do capitalismo multinacional e de consumo e a experiência do sagrado cristão na pós-modernidade revela-se plural e con-sumista.

As marcas mais distintivas da experiência do sagrado cristão na temporalidade pós-moderna são vistas nos movimentos neopentecostais. Nessa esfera da cristandade não existe a tensão presente da modernidade assinalada por Max Weber. Os cristãos dessa vertente se entregam sem culpa aos desejos consumistas e usam a própria fé como aliada na empreitada de conquistar o mundo material. Há uma ressignificação do ideal do crente fiel. Não é mais a ascese mística medieval e nem tampouco da vocação puritana no mundo secular que determina o cristão. O cristão fiel é aquele que mergulha nas conquistas pessoais de prosperidade e sucesso mundano.

Essa experiência do sagrado neopentecostal não é pretensa a exclusividade. Ela admite coexistir com outras experiências, pois, sendo pós-moderna é plural. Ele é mais uma alternativa que se entende adaptada ao novo mundo e suas exigências seculares. A relação entre sagrado e profano se concilia nos objetivos profanos alcançados a partir da experiência do sagrado. Essa espiritualidade é pragmática e utilitarista. A pregação que impunha exigências cede lugar para o discurso positivista e triunfalista.

A experiência do sagrado cristão pós-moderno é mais do que um desenvolvimento do processo da modernidade. É readaptação profunda dos fundamentos e objetivos da fé cristã dos primeiros séculos da era cristã.


Claudionor Bezerra


1 REIS, José Carlos. A modernidade. In. História & Teoria: Historicismo, Modernidade, temporalidade e ver-dade. RJ: FGV, 2003. p.27.
2 WEBER, MAX. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. SP: Martin Claret, 2004. p.116.
3 REIS, José Carlos. A modernidade. p.28.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Os Reformadores e a Pregação

Vídeo com os apontamentos da palestra realizada na Igreja Congregacional de Macaparana no dia 05 de Novembro de 2009, por ocasião da IV Conferência da Reforma Protestante que tinha o seguinte tema: "VOX DEI: A Teologia Reformada da Pregação".

Domingo, Novembro 01, 2009

A ÉTICA DOS SANTOS Ef.5.3-14


A ética dos santos é tema recorrente na segunda parte da Epístola aos Efésios. Por ética dos santos entenda-se o padrão de comportamento que se funda nas verdades eternas reveladas pelo Evangelho. Na estrutura dessa carta é visível o fato de que nos capítulos 1, 2 e 3 o apóstolo se dedica a exposição das verdades, por conseguinte, os capítulos 4, 5 e 6 ele dedica para a exortação. Esse padrão de comportamento que estimula a santidade já havia sido exibido no capítulo anterior e retomado no texto em análise. Nessa passagem, o apóstolo Paulo declara quais tipos de conduta que não é compatível com a ética dos santos e, em seguida, quais os incentivos que estimulam essa ética.

1.CONDUTAS NÃO COMPATÍVEIS COM A ÉTICA DOS SANTOS

É notório o tom de contraste apresentado por Paulo (v.3). Mas, o que Paulo está contrastando? O contraste é com o tipo de vida que caracteriza a sociedade de Éfeso e que não convém, não é compatível com os santos em Cristo. A ética dos habitantes de Éfeso era marcada fortemente pelo erotismo. Essa é a conclusão da análise dos termos usados por Paulo. Pornéia é uma palavra que caracteriza uma diversidade de práticas sexuais ilícitas. Paulo fala ainda da cobiça do corpo de outrem. A imoralidade leva consequentemente a vulgaridade. A vulgaridade pode ser definida como a imoralidade da boca, do falar. Sobre isso algumas expressões merecem destaque: conversação torpe, chocarrices, palavras vãs, etc. Tudo isso aponta para obscenidades que vão desde a profanação do sexo como criação divina até a ridicularização do mesmo através de piadas. É contundente a reação do apóstolo: “nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos”.
Não precisa muito para percebermos como a sociedade contemporânea trata do sexo de modo muito semelhante a sociedade dos efésios. Não faz muito tempo o ator “Pedro Cardoso”, que interpreta o “Augustinho” do seriado da Rede Globo “A Grande Família”, denunciou na ISTO É aquilo que denominou como “pornografia disfarçada”. Segundo ele “a televisão brasileira impõe a pornografia escamoteada em sua programação e deveria responder por crime de pedofilia”. E mais: “Há programas de televisão que se autodenominam reais e nos quais o que se vê lá dentro é totalmente falso a tal ponto de que todo mundo toma banho vestido. É porque aquele banho não é para se lavar, é para produzir cenas de pornografia disfarçada.”
A ética dos santos deve evidenciar um contraste com a pornografia instalada nos meios de comunicação, mas também com as conversações, a pornografia da boca, e toda sorte de conduta que perverte o corpo e o sexo como criação de Deus. Cada cristão deve tomar para si a exortação paulina que declara que isso não convém a santos.

II - INCENTIVOS PARA A ÉTICA DOS SANTOS

Depois de confrontar a ética da sociedade de Éfeso, o apóstolo incentiva os cristãos a desenvolverem um padrão ético digno do status de “santos”. Vejamos a partir de algumas considerações:

2.1 A Convicção do Julgamento (5-6)
Os santos devem saber que toda atitude recebera sua justa retribuição. Deus é revelado nas Escrituras como o Justo Juiz. Logo, toda transgressão necessariamente receberá sua justa punição. E o padrão de vida marcado pelas expressões citadas por Paulo (incontinente, impuro, avarento) será alvo do severo julgamento divino. Esse julgamento pode ser descrito de duas maneiras. Negativamente é a afirmação de que tais pessoas serão excluídas do reino de Cristo e de Deus. O “Dia do Juízo” será um dia de gozo e alegria para os santos (2Tess.1.7), que terão acesso pela graça a herança da fé em Cristo. Positivamente é a constatação que tais pessoas receberão a ira de Deus retribuindo suas obras más. Evidentemente, em todas as épocas a verdade do juízo divino tem sido minimizado por alguns “pseudo” mestres. Estes temem perder popularidade e audiência. Mas a palavra apostólica é contundente: “Ninguém vos engane com palavras vãs”.

2.2 A Realidade da Regeneração (7-14)
Aqueles que serão alvos da ira de Deus são chamados de “filhos da desobediência”. Razão porque os “filhos de Deus”, os nascidos do alto e regenerados, não podem participar do modo de vida ímpio. A realidade da regeneração estabelece um antes e um depois. Quem éramos? Paulo diz que éramos trevas! Ele não diz apenas que estávamos nas trevas. Destarte, agora somos luz! Que incentivo extraordinário para andarmos como filhos da luz! A regeneração se evidenciará nos frutos produzidos por esse padrão de vida: bondade, justiça, verdade. Ao passo que também se fará visível nas escolhas criteriosas que a vida impõe. O regenerado fará sempre a opção por aquilo que é agradável ao Senhor. É notável que no versículo 10, Paulo usa uma expressão que aponta para uma investigação criteriosa (dokimazô). Esse tipo de vida que escolhe e aprova as coisas tendo em vista a glória de Deus, sem dúvida alguma, atrairá a inimizade do mundo. É nesse particular que o confronto é inevitável. Ao regenerado cabe duas atitudes nesse confronto contínuo com as trevas. Primeiro não ser indulgente ou cúmplice com as obras infrutuosas das trevas. Segundo não silenciar, mas reprovar aquilo que por vergonhoso não é compatível com a ética dos santos. O confronto nem sempre é agradável, muitas vezes resulta em inimizades e constrangimentos. Mas, como se estabelecerá a diferença entre as trevas e a luz? Não é esse o resultado pretendido pelo confronto? Senão, vejamos o que diz o apóstolo Paulo: “Mas todas as coisas, quando reprovadas pela luz, se tornam manifestas; porque tudo que se manifesta é luz” (12). A igreja precisa redescobrir sua vocação profética e seu legado de protesto. A igreja precisa denunciar o pecado e reprovar as obras das trevas. Mas isso não acontecerá sem que antes um despertamento sacuda a igreja e a faça acordar. É isso que Paulo clama quando adapta o texto messiânico do profeta Isaías (60.1): “Desperta, ó tu que dormes, levanta-te de entre os mortos, e Cristo te iluminará” (14).
Abraços,
Pr. Claudionor Bezerra

Domingo, Setembro 27, 2009

Imitadores de Deus Ef. 5.1


A proposta do apóstolo Paulo é no mínimo intrigante: “Sede imitadores de Deus”. É elemento formador da cosmovisão judaica a transcendência de Deus. Conquanto o homem seja criado a imagem e semelhança dEle, uma distância os separa. Ainda que Deus se revele e comunique-se com o ser criado, nem de longe pode o homem, na linguagem de Jó, “desvendar os arcanos de Deus ou penetrar à perfeição do Todo-Poderoso” (Jó.11.7). Então, como pode o homem ser imitador do Deus invisível e transcendente? Essa declaração de Paulo só pode ser compreendida em função da encarnação de Cristo. Isso corrobora com o fato dele declarar a motivação dessa imitação: “como filhos amados”. “Ninguém jamais viu a Deus”, disse o evangelista João, “o Deus unigênito que está no seio do Pai é quem o revelou” (Jo.1.18). Próximo da morte de Jesus, Filipe perguntou: “Mostra-nos o Pai?” (Jo.14.8). Sendo Jesus a perfeita revelação do Pai disse: “Quem vê a mim, vê ao Pai” (Jo.14.9) É a partir daí que podemos entender como podemos imitar a Deus: na medida que imitarmos a Cristo, o Filho Amado, estamos imitando o Pai.

Quando efetivamente somos imitadores de Deus?

1. QUANDO EXISTE ÉTICA NAS ATITUDES

É digno de nota que no contexto dessa afirmação Paulo esteja elaborando sobre diversos preceitos morais. Como afirma John Stott sobre essa passagem: “A ética de Paulo se centraliza em Deus”. É como um Pai recomendando a filhos queridos, e não um tirano exigindo dos seus serviçais que Paulo conduz o argumento. O padrão moral dos filhos de Deus deve revelar sua filiação. Para João Calvino o cerne do argumento é: se de fato somos filhos de Deus então devemos ser seus imitadores. Logo, a ética nas ações é um testemunho da nossa fé. Que o desejo de Deus é que o seu povo manifeste o seu caráter santo é provado pelo Decálogo. Como não nos cabe declinar todas as implicações éticas dos Dez Mandamentos, basta sumariar como Cristo o fez: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Na linguagem de Paulo: “andar em amor”.

2. QUANDO EXISTE GRAÇA NOS RELACIONAMENTOS

Nos versículos que antecedem a recomendação para sermos imitadores de Deus Paulo nos oferece um exemplo prático. Entre outras virtudes ele assevera: “perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou”. Em seguida acrescenta: sede imitadores de Deus. A conclusão é que assim como Deus nos tratou com GRAÇA, devemos ser graciosos nos nossos relacionamentos. Ao perdoarmos estaremos imitando aquele que nos perdoou. Nada torna um cristão mais semelhante ao seu Pai Celestial quando ele desenvolve seus relacionamentos pautados na graça de Deus. Não gera expectativas falsas, não espera receber para depois oferecer, não retribui o mal com o mal, não condiciona o amor ao objeto amado e nem desiste de amar diante das faltas do outro. É evidente que o padrão é extremamente elevado, mas como diz João Calvino: “Não que algum dentre nós tenha atingido tal perfeição, mas devemos almejá-la e nos esforçar por alcançá-la na medida de nossa capacidade”.

3. QUANDO EXISTE SACRIFÍCIO NO SERVIÇO

No versículo 2 há duas palavras que merecem destaque: oferenda e sacrifício. Ambas nos remontam a prática de sacrifícios do Antigo Testamento. Essas palavras são ilustrativas da obra de Cristo por nós. Foi uma oferenda porque Ele voluntariamente a ofereceu. Foi um sacrifício porque envolveu a morte e o derramamento de sangue. Como diz William Hendriksen, tudo isso simboliza uma total rendição a Deus. É nessa base que devemos imitar a Deus imitando a forma em que Cristo se rendeu a Deus. A palavra sacrifício é rara no vocabulário evangélico. Isso porque reflete a sociedade hedonista - que busca o prazer pelo prazer - em que a igreja está inserida. Quando muito, a palavra sacrifício está associada com alguma estratégia de marketing para conseguir arrecadação financeira em nome de Deus. Mas, o tipo de sacrifício que devemos refletir em nossa vida tem relação com as implicações do discipulado cristão, a negação de si mesmo e o tomar a cruz. Imitar a Deus nesse sentido é seguir os passos de Jesus.
No recente livro lançado pela Editora Fiel, “Andando nos Passos de Jesus”, o autor, Larry McCall, depois de uma série de considerações sobre como andar nos passos de Jesus, elabora sobre o preço desse andar. Eis que surge um possível paradoxo. Andar nos passos de Jesus não nos custa nada. Em função de que o dom da vida é gratuito. Mas, ao mesmo tempo, seguir a Jesus nos custa tudo. Segundo McCall é não viver mais para nossa auto-promoção, auto-estima, auto-realização. Não mais vivermos para nossos antigos desejos ou estilos de vida. É perder a vida. Mas, “ao perdemos nossa vida realmente a encontraremos”. E nesse ponto que vale a pena o sacrifício, pois a partir daí poderemos ter a mesma paixão que teve Cristo em se oferecer em sacrifício. E o resultado disso tudo é que tal como Cristo, seremos aroma suave, perfume agradável e aceito por aquele a quem somos desafiados a imitar.


Abraços,


Pr. Claudionor Bezerra

Quarta-feira, Agosto 19, 2009

As Novas Vestes do Cristão Ef.4.25-32


As vestes do novo homem em Cristo é completamente diferente da antiga roupa do velho homem. Razão porque ele manifestará em diversas áreas, virtudes que fluem dessa nova vida como um ribeiro de uma fonte. Apesar de não ser muito comum nos dias atuais a exigência de valores e padrões morais, na vida cristã é diferente, e a despeito da dificuldade de muitos líderes em promover exortações morais, não devemos rebaixar o padrão de Deus para o seu povo.

Vejamos algumas áreas da vida de um cristão em que essas virtudes se manifestarão.

I – A VERDADE

Mentira aqui significa falsidade, astúcia, hipocrisia, meias verdades etc. Em síntese: agir fraudulentamente com alguém. O cristão tem o compromisso de falar a verdade com todos, mas principalmente com os da família da fé. E a razão dessa imposição legítima é o tipo de vínculo que liga um cristão ao outro. No início do capítulo em estudo, o apóstolo declarou que deveríamos envidar todo esforço para guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Como já analisamos, a unidade cristã é a maior expressão do andar digno exigido pelo chamado que recebemos. Além do que essa unidade é espiritual antes de ser social. Logo, agir com engano para com alguém membro desta família é um comportamento contraditório com a fé que professamos. Ademais, uma palavra deve ser destacada, Paulo não diz que somos membros da igreja no sentido de uma instituição, mas somos membros uns dos outros. Noutras palavras, eu tenho parte com você e você tem parte comigo.
II – A IRA JUSTA
Essa recomendação é um eco do que está registrado no Salmo 4.4. Cujo verbo no hebraico (ragaz) significa tremer ou ser agitado pela ira. A pergunta que muitos podem fazer é: “Existe ira justa?” A resposta é afirmativa. Mas antes de refletirmos sobre a ira justa é bom relembrarmos quando a nossa ira é uma ofensa a Deus: (1) Quando nos iramos por razões sem importância. (2) Quan-do na nossa ira excedemos nas emoções. (3) Quando nos iramos contra os outros por causa dos nossos próprios erros. Essas são apenas alguns casos de como a ira se torna pecaminosa por dá evasão aos afetos carnais. O reformador João Calvino ainda alerta que quando a nossa ira for dirigida aos outros, “que nos iremos contra seus erros em vez de nos irarmos contra suas pessoas”.
Quando é que nossa ira é justa? Quando envolva razões que desprestigie o Evangelho e embace a glória de Deus. Quando a justiça esteja sendo tolhida e o nosso silêncio seja um fator agravante. Enfim, tantas outras situações poderiam ser mencionadas, mas o apóstolo nos adverte sabendo da tendência pecaminosa da nossa alma. Se não pusermos um limite na nossa ira ela logo se transformará em pecado. Razão porque o diabo aproveitando essa vantagem ganhará terreno na nossa vida. Então, “nunca vá pra cama irado”! Ou seja: “não se ponha o sol sobre a vossa ira”. Ainda o salmista afirma: “falai com o vosso coração sobre a vossa cama, e calai-vos” (Sl.4.4).

III – A HONESTIDADE
Aqui estamos diante de um dever de fazer e não-fazer. Comecemos pelo último. O furto não pode ser reduzido apenas aos crimes aos quais haja previsão legal, mas até mesmo aqueles que ninguém denuncia ou percebe. Aqui inclui as coisas grandes e pequenas. O cristão tem o dever de fazer diferente. Trabalhando com as próprias mãos suprir suas necessidades pessoais, mas indo além, ajudando aqueles que dele necessite. Mas o trabalho do cristão não é algo indiscriminado, o apóstolo o qualifica como devendo ser algo “que é bom”. Que nenhum cristão seja motivo de escândalo pelo tipo de trabalho que realiza.

IV – A CONVERSAÇÃO
Tudo aquilo que provoca vergonha moral é indecoroso para o cristão. É preciso que o cristão revele com sua boca aquilo que ocorreu no seu coração. Não cabe para um cristão “palavrões”, “piadas profanas”, “expressões dúbias” ou qualquer outro artifício da linguagem que não acrescente a quem ouve. Nem de brincadeira? Não! Ao cristão cabe uma palavra que transmita graça. Não acredito que isso seja sinônimo de uma sisudez rígida, de alguém que não sorri ou não se diverte. Mas, é preciso cuidado com aquilo que nos arranca gargalhadas, muitas vezes, e até em alguns púlpitos, a comédia com coisas espirituais torna trivial verdades que deveriam ser tomadas com a maior reverência. Razão pela qual o apóstolo acrescente uma constatação da mais alta importância: alguém pode estar se divertindo com coisas que, e ao mesmo tempo, o Espírito está se entristecendo.

V – OS RELACIONAMENTOS
O apóstolo traz uma série de atitudes que prejudicam e destróem relacionamentos: amargura, ira (injusta e desmedida), cólera, gritaria, difamação e malícia. É tão claro que dispensa comentários, como também é claro o comportamento oposto que deve caracterizar os relacionamentos dos cristãos: bondade, paciência e perdão. Sobre este último, como não poderia deixar de ser, um lembrete: devo ter uma postura quanto ao perdão lembrando-me da postura que Deus em Cristo teve comigo.

O padrão da vida do cristão é extremamente elevado em comparação com a prática mundana. Mas devemos estar seguros que, isso não nos é exigido como se tivéssemos capacidade de realizar sozinhos. O Espírito nos capacitará para tanto, razão porque o apóstolo dirá em seguida que o nosso padrão deve ser não menos que imitadores de Deus.
Abraços,
Pr. Claudionor Bezerra

Sábado, Agosto 01, 2009

Conceito Reformado de Vocação Eficaz

Palestra realizada na Conferência Teológica 2009 da Igreja Evangélica Congregacional de Macaparana-PE (Pr. Severino Carlos).

O objetivo foi traçar um desenvolvimento histórico (uma espécie de arqueologia do saber) da doutrina chamada pelos puritanos de VOCAÇÃO EFICAZ. Passando desde Pelágio até a Confissão de Fé de Westminster, o propósito foi fornecer elementos para julgar a importância histórica da "Vocação Eficaz" e o contexto histórico desse conhecimento doutrinário no século XVI e XVII.

O vídeo com a apresentação usada na palestra foi dividido em três partes para facilitar o upload.





Quinta-feira, Julho 30, 2009

A ORDENANÇA DO BATISMO


As duas únicas ordenanças cristãs são: o batismo e a ceia. São assim chamadas porque estão ligadas a uma ordem (Mt.28.18-20; Lc.22.19). Outros preferem enfocar não a ordem dada, mas a ordem obedecida, assim designam o batismo-ceia como sacramento, do latim sacramentum, que significava um juramento de fidelidade.
O batismo é realizado nas igrejas protestantes/evangélicas de duas maneiras:
a) Imersão: Quando o batizando é mergulhado totalmente na água, podendo ser um tanque, piscina, rio ou em qualquer lugar que seja adequado para essa cerimônia;
b) Aspersão: Quando o batizando recebe a aspersão da água sobre a cabeça. Esse tipo de batismo não está limitado a nenhum lugar geográfico. Essa é a maneira como as Igrejas Evangélicas Congregacionais batizam os novos convertidos.

O QUE É ESSENCIAL NA CERIMÔNIA DO BATISMO?
Alguns afirmarão que o essencial na cerimônia do batismo é que a pessoa que esteja sendo batizada seja mergulhada totalmente nas águas. Normalmente os que sustentam essa opinião não aceitam como válido o batismo administrado por aspersão.
Vejamos porque esse tipo de postura é equivocada e sem fundamentação bíblica:
1) Jesus em nenhum lugar afirmou que o batizando devesse ser mergulhado totalmente na água. Ele não descreveu com detalhes a administração do batismo pela razão de que esta prática já era amplamente conhecida no meio judaico. E como veremos adiante, os rituais de purificação do Antigo Testamento se davam por aspersão.
2) Apesar da palavra batismo (baptismo) significar imersão, esse não é o único uso da palavra. Batismo significa lavagem, derramamento, purificação, entre outros usos.

a) Antes da refeição os judeus se lavavam (batizavam) num ritual de purificação:
Lc.11.37,38: “Ao falar Jesus estas palavras, um fariseu o convidou para ir comer com ele; então, entrando, tomou lugar à mesa. O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (ebaptistê) primeiro, antes de co-mer.”
b) Até mesmo objetos eram lavados (batizados) num ritual de aspersão:
Mr.7.4: “quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem (baptisôntai); e há muitas outras coisas que receberam para observar, como a lavagem (baptismous) de copos, jarros e vasos de metal e camas,”
c) A palavra batismo é usada até mesmo quando não existe água:
Mr.10.37-40: “Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda. Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, porém, ao assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.”

Rm.6.3,4: “Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cris-to Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.”

1Cor.10.1,2: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés.”

At.10.44,45: “Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo (batismo do Espírito Santo).”

Tudo o que foi dito até não significa que o batismo por imersão seja inválido, até porque o importante no batismo não é a quantidade de água. Mas simplesmente que em nenhum lugar das Escrituras encontramos fundamento para afirmar que o batismo realizado por imersão é o único válido. Todavia, a Bíblia fornece fortes indícios que o batismo por aspersão era o batismo conhecido pelos judeus e pelos apóstolos, vejamos:

JOÃO BATISTA BATIZAVA POR ASPERSÃO
Alguns precipitadamente dirão que João Batista batizava por imersão pelo fato dele o fazer no rio Jordão. O fato de João Batista batizar num rio não prova que ele mergulhava as pessoas totalmente na água, mas sim, que ele precisava de muita água para batizar os que vinham ao seu encontro.
Mt.3.5,6: “Então, saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judéia e toda a circun-vizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.”

É o caso do eunuco batizado por Felipe (At.8.36). Ora, os viajantes não carregavam depósitos de água, exceto a de beber, por isso, ao avistarem a água, desceram e ele foi batizado.

1) O batismo de João foi identificado como o ritual de purificação de pecados do Antigo Testamento
João Batista conclamava as pessoas para o batismo de arrependimento com água, preparando o caminho daquele que iria batizar com o Espírito Santo.

Jo.1.33: “Eu não o conhecia; aquele, porém, que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e pousar o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo.”

O batismo de João Batista não era algo novo para os judeus, pois o Antigo Testamento profetizava que quando o Messias viesse ele iria purificar o povo através da aspersão da água.

Ez.36.25-27: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei. Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis.”

O próprio Moisés, que havia aspergido água no povo, prometeu a vinda de um profeta maior que ele.

Hb.9.19: “porque, havendo Moisés proclamado todos os mandamentos segundo a lei a todo o povo, tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, e lã tinta de escarlate, e hissopo e aspergiu não só o próprio livro, como também sobre todo o povo,”

Quando os fariseus viram o batismo de João Batista, identificaram imediatamente com as profecias de purificação prometidas no Antigo Testamento, e assim o fizeram porque João Batista estava aspergindo água naqueles que estavam sendo batizados.


Jo.3.25: "Ora, entre os discípulos de João e um judeu suscitou-se uma contenda com respeito a purificação"

Jo.1.19-21; 24,25: “Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe envia-ram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntarem: Quem és tu? Ele confessou e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. Então, lhe perguntaram: Quem és, pois? És tu Elias? Ele disse: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não [...] Ora, os que haviam sido enviados eram de entre os fariseus. E perguntaram-lhe: Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta?”

2) O batismo de João fazia parte da Lei, por essa razão o próprio Jesus foi batizado por ele.

Mt.3.13-15: “Por esse tempo, dirigiu-se Jesus da Galiléia para o Jordão, a fim de que João o batizasse. Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim? Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.”

Ml.3.1,3: “Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; [...] purificará os filhos de Levi”

OS APÓSTOLOS BATIZAVAM POR ASPERSÃO
O batismo que os apóstolos realizaram em obediência a ordem de Jesus, não era diferente do batismo de João Batismo no que diz respeito à maneira. Mas era diferente quanto ao significado.
Com João Batista o batismo era de preparação para o Messias que vinha, já os apóstolos foram ordenados a batizarem em nome daquele que já veio.
A purificação realizada por João Batista (batismo com água) era um sinal da puriricação superior prometida que estava por vir (batismo com Espírito Santo). Essa cumpriu-se no dia de Pentecostes na descida do Espírito e ainda hoje ocorre na vida daquele que recebe o Espírito no momento da sua conversão.
Assim, o batismo com água é o sinal externo da purificação dos pecados operado pelo Espírito no interior de cada pessoa.

Tt.3.5: “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo,”

At.2.38: “Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batiza-do em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.”

At.22.16: “E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele.”


O batismo não salva, nem a água tem poder de tirar pecados, mas ele é o testemunho externo da consciência de purificação interna.

1Pe.3.20,21: “os quais, noutro tempo, foram desobedientes quando a longani-midade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água, a qual, figurando o batismo, agora também vos salva, não sendo a remoção da imun-dícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo;”

Que o batismo registrado em Atos dos Apóstolos era por aspersão pode ser deduzido pelos seguintes argumentos:
e) Três mil batismos na pregação de Pedro (At.2.41);
f) O batismo de Paulo na casa de Ananias (At.9.18);
g) O batismo de Cornélio em sua residência (At.10.47);
h) O batismo do carcereiro na prisão (At.16.33);

CONCLUSÃO
O batismo deve ser ministrado com água àqueles que confessando a Jesus Cristo como Senhor e Salvador pessoal, desejam em ato de obediência submeterem-se a esta ordenança legada pelo Senhor Jesus. Não obstacula-mos na jornada cristã os irmãos que foram imersos na água. Cremos que a quantidade de água não irá alterar o significado da essência do Batismo. Contudo, não deixamos de ensinar e batizar por aspersão. Isto por causa dos ensinamentos bíblicos em que cremos e que julgamos interpreta-los com fidelidade. Abaixo alguns pontos relevantes:

1) Todos os que confessam Jesus como Salvador e Senhor devem fazê-lo através do batismo;
2) É fundamental que aquele que batiza seja um ministro vocacionado por Deus e autorizado através da ordenação;
3) É requisito fundamental que seja com água como símbolo de purificação e em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – o Deus Triúno: autor da salvação.


Abraços,


Pr. Claudionor Bezerra